Uma sombra em busca de almas

quarta-feira, 14 de março de 2018

Acrilíco de Elio Villate
Fui
un trovador errante
sombra por caminos sin almas.

Mis riquezas fueron aquellos sitios
donde aprendían mis canciones
quienes me las mostraban.
Vagabundos alrededor de sus hogueras,
iluminaciones de cirqueros y perros
donde me convertía en una chispa transitoria
disuelta en las remotas antífonas
que saben las cigarras.

Mi patria era la intemperie,
los acosados campos de clorofila elemental
y fauna en eclosión
Pero también era ceniza,
miércoles de lloviznas
masticando la hogaza sucia y nutritiva
que comparte el proscripto ordinario,
risueño y colosal,
entre las tibias, ocasionales piernas
de un cisne amaestrado.

Fui
un trovador errante,
y ahora, tras el paso del tiempo,
soy quien enciende las hogueras,
quien convoca luciérnagas
y sabe el nombre de la chispa que salta
de la crepitación hacia la noche,
cometa de un universo diminuto
donde mi mano es la de Dios,
quiero decir, la de un colosal viejo vagabundo
con la mirada puesta en los senderos,
con la memoria abierta
a la única riqueza que le espera.

Susurraré mi historia
a un trovador errante,
sombra en busca de almas,
para que la reparta
junto a los fuegos ocasionales, tibios,
que depara el camino
a todos quienes sueñan,
con un cisne salvaje.
(Silvio Rodríguez)
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Celebração dos homens-fêmeas

quinta-feira, 8 de março de 2018

Domitila Chungara - Janis Joplin - Frida Kahlo - Elza Soares - Serena Williams

O texto embaixo foi escrito por Fernanda Torres e publicado há um tempo na Folha de Sâo Paulo. Seu enfoque -original, engraçado, polêmico- não resistiu o teste da diversidade. Uma chuva de ataques caiu encima dela. E ela reagiu de maneira errada: pedindo desculpas. Acho que o medo de ver sua imagem arranhada fez com que ela desse uma ré. A intolerância, o sectarismo, o ódio e até o desejo de vingança que permeiam a muitos dos movimentos e manifestações autonomeados de feministas a miúde fazem muito dano a sua própria causa, botando paus na roda da evolução da consciência humana. Precisa-se ser dito: definitivamente, não são as mulheres melhor coisa que os homens. Uns e outros ainda não conseguiram superar sua condição de primatas. Uns e outros deixam ainda muito a desejar. Uns e outros são responsáveis e cúmplices do sistema injusto, doentio e anacrônico que controla nossa sociedade. A ignorância e a banalidade in extremis de dois bobinhos como Bruna Marquezine e Neymar podem server de símbolo suficiente. Então, desculpas de que, Fernanda? De pensar diferente, de ser corajosa, de ser honesta e sincera, de ser autocrítica, de não se exibir, de ser uma boa atriz -e não uma mera celebridadezinha global-, de ser uma boa escritora, produtora, roteirista, esposa, mãe, mulher de colhões, anormal e ousada que em cada ato de sua vida bota em jogo o corpo e alma?... Bom, me desculpa, dona Fernanda, mas aqui vamos ignorar suas desculpas. E vamos republicar, inteirinho, aquele texto saboroso, leve, despojado como a melhor forma que achei para homenagear às mulheres, nesse 8 de março, dia tão particular onde os homens-de-sexo-feminino podem relembrar ao mundo que há uma metade maravilhosa da humanidade que é imprescindível para a evolução harmoniosa e amorosa dos homens de todos os sexos. Obrigada, Fernanda. Fiu, fiu...

         
Mulher

*Por Fernanda Torres

No presente, a mulher ainda apanha, ganha menos do que o homem e fechou um contrato social impossível de ser cumprido, já que cabe a ela não só cuidar da prole, do lar, se manter jovem e desejada, como também trabalhar para contribuir para o sustento da casa. Sobra tempo nenhum para dormir e, muito menos, sonhar com alguma realização que vá além dos deveres do dia.

Nas camadas mais desassistidas, o fim do casamento indissolúvel produziu milhares de lares sem pai, onde a avó e a mãe servem de esteio para a estrutura familiar. Na falta de creches, de escolas, do Estado para ampará-las, a tarefa de criar rapazes que não repitam a violência e o abandono dos pais e meninas que deem um basta na escravidão das mães, é uma missão que beira o inatingível.

A maternidade interfere na vida da mulher de uma forma mais arraigada do que a paternidade na do homem. Temos um relógio biológico certeiro, que coincide com nosso período produtivo, interferindo nas decisões profissionais e pessoais. A fragilidade no emprego, a dependência dos cônjuges, a falta de liberdade de ir e vir passa pela incapacidade do feminino de se desapegar das crias. Um homem, seja ele pobre, rico, preto ou branco, baixo, alto, feio ou bonito, dorme quando está cansado, sai quando deseja e dá prioridade à própria agenda, sem nenhuma pressão que não a da vontade.

Algumas correntes defendem que essa diferença é cultural, mas eu acho que é biológica, carnal, imemorial.

Sou pela licença paternidade. É um passo e tanto para que o casal, unido, divida a responsabilidade dos primeiros meses exaustivos de um bebê. Sou favorável a que toda fábrica tenha uma creche e tenho gratidão pelas babás que me criaram e que criaram meus filhos, cumprindo a função da mãe social, que nos tempos da vovó menina era feito pelas tias, primas, avós e irmãs da casa.

Invejo o companheirismo dos homens, o prazer que eles sentem de estarem juntos e se divertirem com qualquer bobagem. Homem gosta muito de estar com homem. Não me incomoda o machismo, confesso, talvez seja uma nostalgia de infância que carrego. A geração que me criou era formada por machões gloriosos, de Millôr a Miéle, irresistíveis até nos seus preconceitos.

Um editor alemão recusou publicar meu livro, Fim, dizendo que era machista. Explicaram que a obra havia sido escrita por uma mulher e ele disse que não importava, que era machista do mesmo jeito e não iria pegar bem na Alemanha. Está certo o editor, eu sou latina, não consigo entrar numa sauna com todo mundo pelado e me manter isenta.

Os estupros da passagem de ano na mesma Alemanha advogam em favor do editor avesso ao machismo. A violência contra a mulher é menor em lugares onde a igualdade entre os sexos é melhor resolvida. Nos países muçulmanos que visitei, Marrocos, Egito, Malásia, sempre me incomodou o olhar guloso, reprimido e repressor dos homens.

O Brasil está entre um e outro.


Minha babá era um avião de mulher, uma mulata mineira chamada Irene que causava furor onde quer que passasse. Eu ia para a escola ouvindo os homens uivando, ganindo, gemendo, nas obras, nas ruas, enquanto ela seguia orgulhosa. Sempre associei esse fenômeno à magia da Irene. O assédio não a diminuía, pelo contrário, era um poder admirável que ela possuía e que nunca cheguei a experimentar.

Estou certa de que essa é a minha primeira encarnação como mulher.

Apesar do talento para ser mãe, sou menos feminina do que gostaria de ser. Já beirando a idade em que nos tornamos invisíveis ao peão da obra da esquina, rejeito as campanhas anti fiu fiu e considero o flerte um estado de graça a ser preservado. É claro que um chefe que mantém uma subalterna sob pressão constante merece retaliação, mas uma vida de indiferença, onde todo mundo é neutro, não falo igual, digo neutro, sem xoxota, sem peito, sem pau, bigode, ah… é uma desgraça.

Tenho admiração pelas mulheres livres, que não conhecem o medo e são plenas na sua feminilidade. Certa feita, um mulherão me explicou que terminou um casamento sem brigas e sem sofrimento porque o marido ficou homem demais. Na casa dela, pontuou a morena, só havia lugar para um homem, e esse homem era ela.

Nunca fui mulher o suficiente para chegar a ser homem.

A vitimização do discurso feminista me irrita mais do que o machismo. Fora as questões práticas e sociais, muitas vezes, a dependência, a aceitação e a sujeição da mulher partem dela mesma. Reclamar do homem é inútil. Só a mulher tem o poder de se livrar das próprias amarras, para se tornar mais mulher do que jamais pensou ser: um homem fêmea.


* Fernanda Torres é atriz, roteirista, escritora.


Afirmação de princípios

quinta-feira, 1 de março de 2018

-Entrás a la jaula o te morís...
-Entonces me suicido -contestó el pájaro.
-Roberto Margarido-

Mi libertad me ama y todo el ser le entrego.
Mi libertad destranca la cárcel de mis huesos.
Mi libertad se ofende si soy feliz con miedo.
Mi libertad desnuda me hace el amor perfecto.

Mi libertad me insiste con lo que no me atrevo.
Mi libertad me quiere con lo que llevo puesto.
Mi libertad me absuelve si alguna vez la pierdo
por cosas de la vida que a comprender no acierto.

Mi libertad no cuenta los años que yo tengo,
pastora inclaudicable de mis eternos sueños.
Mi libertad me deja y soy un pobre espectro,
mi libertad me llama y en trajes de alas vuelvo.

Mi libertad comprende que yo me sienta preso
de los errores míos sin arrepentimiento.
Mi libertad quisieran el astro sin asueto
y el átomo cautivo, ser libre ¡qué misterio!

Ser libre. Ya en su vientre mi madre me decía
"ser libre no se compra ni es dádiva o favor".
Yo vivo del hermoso secreto de esta orgía:
si polvo fui y al polvo iré, soy polvo de alegría
y en leche de alma preño mi libertad en flor.

De niño la adoré, deseándola crecí,
mi libertad, mujer de tiempo y luz,
la quiero hasta el dolor y hasta la soledad.

Mi libertad me sueña con mis amados muertos,
mi libertad adora a los que en vida quiero.
Mi libertad me dice, de cuando en vez, por dentro,
que somos tan felices como deseamos serlo.

Mi libertad conoce al que mató y al cuervo
que ahoga y atormenta la libertad del bueno.
Mi libertad se infarta de hipócritas y necios,
mi libertad trasnocha con santos y bohemios.

Mi libertad es tango de par en par abierto
y es blues y es cueca y choro, danzón y romancero.
Mi libertad es tango, juglar de pueblo en pueblo,
y es murga y sinfonía y es coro en blanco y negro

Mi libertad es tango que baila en diez mil puertos
y es rock, malambo y salmo y es ópera y flamenco.
Mi libertango es libre, poeta y callejero,
tan viejo como el mundo, tan simple como un credo.

(Libertango, poema de Horacio Ferrer) t 
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Federico

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018


"Dejadme, 
ya vendrá un viento fuerte 
que me lleve a mi sitio". 
- León Felipe - 

*Por José María Cáceres

a FMPR i.m

Era sin duda un tipo refinado. Con estampa de niño bien, patrón de estancia. Se notaba en cada uno de sus gestos haber sido educado en un clima decimonónico lleno de reglas puntillosas, ácidas ironías lanzadas con estudiada afectación en inglés y francés. Una educación que propicia la crianza de narcisos que se reflejan solo en el espejo de su especie. Insonorizado de la plebe, lejos del choripán. 

Fue forjado en una cultura muy alejada de la naturaleza y de los tenderos nuevos ricos. Un lugar donde los hombres deben pujar ganadores en el remate del toro campeón en La Rural mientras las mujeres se balancean en el melancólico columpio de una distinguida neurastenia. Pero la inteligencia pudo más que todo ese envoltorio.

Harto de ese refinamiento artificioso Federico, se propuso un plan de fuga.

Comenzó por renunciar a su destino de heredero. En la familia, la inédita decisión se tomó como un agravio a la nobleza de sus ancestros. Y tuvo su castigo. Le proveían lo mínimo para la supervivencia en la esperanza que, ante la ausencia de lo material,  recapacitara y volviera al redil y al testamento. También en las tertulias edulcoradas, entre mayordomos y candelabros de plata, se insinuaba -un tanto sibilinamente- que lo mejor era decir que estaba algo loco.

Aun así, el hombre dejó esos bienestares y comenzó una vida de artista transitando las calles apestadas de pueblo, pintores, actores, escritores, estetas. Toda gente del zanjón. Un horror. Deambulaba por Buenos Aires, como si abandonara cada mañana su celda de clausura, saliendo a la calle para anunciar la presencia del Firmamento Interno en cada uno de nosotros. El Otro Lado, afirmaba, es el Firmamento Interno. Una especie de arrabal cósmico donde es posible encontrarse con aquellos que lograron huir de la obscena maquinaria cotidiana que pica carne sin cesar. 

Una mañana me llamó por teléfono para comunicarme que  la obra que pensaba realizar ese año consistiría en  bajar de peso. Unos quince kilos. Me anunciaba también que vendría a mi casa y, como siempre lo hacíamos, hablaríamos de Dios. Y dado que su obra ya estaba en marcha pidió para el almuerzo un bife de cuadril desgrasado a la plancha, muy jugoso, acompañado de ensalada mixta. Nada de pan, como postre una manzana roja. Accedí a preparárselo con gusto. La compañía de esta especie de ángel de Buenos Aires, era para mí y para algunos otros, la presencia de un espíritu celeste.

La comida se deslizaba por los mansos senderos de la amistad  y nada hacía presagiar la conmoción posterior. Pero, como siempre sucede, la inocencia siempre sorprende cualquier intriga. Y como estaba acostumbrado a sus largos silencios donde se colgaba con algún pensamiento metafísico, seguí con mi rutina de trabajo.

Todo parecía en calma hasta que preguntó:

- ¿Che, nunca deseaste que te lleve el viento?

Sorprendido atiné a responder ¿cómo que me lleve el viento?

Y ahí hizo una larga pausa.

A esa hora, la luz que había sido intensa en la mañana, comenzaba a declinar iluminando con sutileza las cosas del taller, sobre todo pareció detenerse -como lo hacía Lacámera- en el plato con una manzana que estaba sobre la mesa. 

- Si, un viento que ante el desconcierto que es la vida te permitiese huir de tus maquinaciones cerebrales. Pero, ojo que no me refiero a cualquier viento…

Entonces fijó sus ojos en mi propio desconcierto diciendo:

– Sí, que te lleven uno de esos vientos extraviados que no soplan en ningún cuadrante conocido y que, suavemente, te dejen caer en al lugar exacto.

Mi sorpresa iba en aumento y respondí lleno de intriga: ¿Qué es eso del lugar exacto? 

Me miró advirtiendo mi ignorancia y replicó con firmeza.

- Al lugar que hayas elegido vos, para vos. Más aun, un viento que te lleve donde siempre quisieras estar. A tu lugar.

Mordió la manzana roja casi con devoción y como era habitual en él, ya estaba en otra cosa. Yo, en tanto, mudo, catatónico, había comprendido que no tenía la más lejana idea de cuál era, para mí, ese lugar.

Entendí que si quería huir de mis maquinaciones cerebrales, debía primero saber dónde quería llegar.

Y que era hora que me lo preguntase.

*José María Cáceres es escritor, artista plástico, maestro de arte e figther existencial.
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Um brinde às fêmeas

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018


Yo quise ser como los hombres  quisieron que yo fuese:
un intento de vida;
un juego al escondite con mi ser.
Pero yo estaba hecha de presentes,
y mis pies planos sobre la tierra promisora
no resistían caminar hacia atrás,
y seguían adelante, adelante,
burlando las cenizas para alcanzar el beso
de los senderos nuevos.

A cada paso adelantado en mi ruta hacia el frente
rasgaba mis espaldas el aleteo desesperado
de los troncos viejos.

Pero la rama estaba desprendida para siempre,
y a cada nuevo azote la mirada mía
se separaba más y más y más de los lejanos
horizontes aprendidos:
y mi rostro iba tomando la expresión que le venía de adentro,
la expresión definida que asomaba un sentimiento
de liberación íntima;
un sentimiento que surgía
del equilibrio sostenido entre mi vida
y la verdad del beso de los senderos nuevos.

Ya definido mi rumbo en el presente,
me sentí brote de todos los suelos de la tierra,
de los suelos sin historia,
de los suelos sin porvenir,
del suelo siempre suelo sin orillas
de todos los hombres y de todas las épocas.

Y fui toda en mí como fue en mí la vida…

Yo quise ser como los hombres quisieron que yo fuese:
un intento de vida;
un juego al escondite con mi ser.
Pero yo estaba hecha de presentes;
cuando ya los heraldos me anunciaban
en el regio desfile de los troncos viejos,
se me torció el deseo de seguir a los hombres.
Y el homenaje se quedó esperándome.
(Julia de Burgos Yo misma fui mi ruta)

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Por la forma de pararla...

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017


... de apretarla contra el piso
levantando la cabeza,
ganando el pique cortito,
no se sabe con qué pie
los desbordará otra vez...



Al fondo de la red
.Por la forma de pararse
en el medio de la cancha,
de matarla con el pecho,
de volar hasta la raya,
no se sabe con qué pie
se les va a ir otra vez,
con una moña fugaz
o sirviendo una pared

Por la forma de pararla,
de apretarla contra el piso,
levantando la cabeza,
ganando el pique cortito,
no se sabe con qué pie
los desbordará otra vez
al zaguero lateral,
a mis ojos que no creen

Cómo quiebra la cintura y la razón
y se acomoda en el aire, el pájaro,
para pintarle ese gol... al domingo

Por la forma de cambiarla
sin hacer una de más,
por esa comba exquisita
que se anticipa al azar,
no se sabe con qué pie
se desmarcará otra vez
de las canillas del back
en su camino a la red

Por la forma de pararse
para patear el penal
donde se lo juega todo
sin revancha ni replai,
no se sabe con qué pie
se desmarcará otra vez
del zaguero lateral,
de mis ojos que no creen
        
Cómo quiebra la cintura y la razón
y se acomoda en el aire, el pájaro,
para pintarle ese gol... al olvido
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Introdução lúdica à demissexualidade

sexta-feira, 7 de abril de 2017


*Por Lidia Amendola

Este texto é uma narrativa baseada na minha experiência (de uma demi hétero-romântica [olha outro termo aí!] o que não significa que todos os demis sejam assim). O espectro da área cinza é gigantesco e minha intenção aqui não é definir a demissexualidade, mas sim contar como ela é pra mim, ou seja, falar de uma nuance. O assunto é bem complexo e tem muitos textos ótimos e completos que, esses sim, trazem uma explicação bem detalhada sobre o assunto. Este texto é uma introdução "lúdica" ao assunto.

Dias desses uma amiga veio falar comigo no WhatsApp:

— E aí? Tudo bem? Como tá na França?

— Oi, tudo bem e aí? Aqui tá tudo certo, muito frio. (:

— Que bom! Mas, e os gatinhos?

— Nem pensei nisso. Tô trabalhando bastante, bem feliz com o estágio.

— Nossa, mas não rolou nem uma paquerinha?

— Hum... não.

— Nossa, como você é calma.

Então, não é calma. Eu sou demissexual, mas por mais que eu tente explicar, ninguém entende. Mais do que não entender, tem gente que não respeita.

Esses termos são relativamente novos e ninguém é obrigado a saber, isso não é ignorância. Ignorância é não querer saber. É achar ridículo, achar que é bobagem, que tem cura, que dá pra mudar. Não. Nasci assim, tô muito bem com isso e não quero mudar.

Mas, afinal, o que é ser demissexual? Tia Lidia te explica.

Sendo (bem) breve, nesse mundão em que vivemos, temos 3 tipos de pessoas:

1. As alossexuais: aquelas que sentem atração sexual por outras pessoas. Elas olham uma pessoa > acham essa pessoa atraente > ficariam com essa pessoa.

2. As demissexuais: aquelas que só sentem atração sexual por outras pessoas caso tenham algum tipo de ligação emocional / psicológica / intelectual.

Cenário a) Ela olha uma pessoa > não sente nada. Pode ficar com essa pessoa? Pode, mas não sentirá nada. Não será prazeroso pra ela. Algumas pessoas se esforçam e ficam mesmo assim. Mas a experiência pode ser tanto indiferente como incômoda. Sempre que me esforcei me senti um pedaço de carne no açougue.

Cenário b) Ela olha uma pessoa > ela conhece essa pessoa > elas conversam > elas criam uma ligação (afeto) > essa pessoa passa a ser atraente para o demissexual.

3. As assexuais: aquelas que não sentem atração sexual at all! Elas podem se apaixonar, mas jamais sentirão atração por alguém.

O "problema" é que vivemos em um mundo alossexual, que espera que você também seja.

— Mas, espera, nem se o cara for muito, mas muito gato você sente atração? Tipo, se o cara mais gato do mundo estivesse aqui, agora, você não ficaria com ele?

Então, não se trata da beleza da pessoa. Abrindo um parêntese aqui: nós achamos pessoas bonitas, achamos certos tipos de corpos bonitos e tudo mais. Mas tipo, só. É bonito, mas se eu simplesmente não sei quem é o cidadão, eu não sinto nada. É bonito, ponto.

Pode acontecer de eu achar que o cara é o cara da minha vida. Vai rolar assim de cara? Nop. Lindo, inteligente, gente boa. Mas, calma, essa boquinha aí também foi feita pra falar, então, fala!

Como eu ia dizendo, não é a beleza que determina. Você pode colocar o Sebastian Stan pelado na minha frente.

Se você não conhece, este é o Seb:

Sebastian Stan, ator romeno-americano.
-Mas, então, nem ele?

De cara, não. Pode ser, digamos, assim: Oi, Sebastian, aceita um vinho? Não tenho cerveja, é que eu não curto muito, sabe? Então, tá em Paris de passagem? Cê acredita em astrologia? Qual foi o sonho mais doido que você já teve? Qual seu sabor de sorvete favorito?

E o Sebastian, se quiser, pode entrar no jogo. Jogar conversa fora. Me falar da vida dele. Me contar daquela vizinha sem noção. Da maior merda que ele fez na vida. Dar risada. E então ele pode se tornar um cara atraente, mas por aquilo que ele é.

Sabe, eu nunca fiquei com aquele cara.

— Que cara?

Aquele do show do Strokes. Não sei o nome dele. Ele tava com uma blusa do Joy Division. Gatinho...

Mas, não, não aconteceu. Mas, sabe com quem aconteceu? Com aquele cara que sei o nome e sobrenome. Aquele cara que eu sei que sua cor favorita é verde, sua fruta favorita é melancia, que ele caiu e quebrou os dois braços ao mesmo tempo quando tinha 7 anos, que ele foi um filho planejado, mas sempre acharam que ele era uma menina. Aquele que sei que mora na rua da faculdade, que gosta de Beatles e seu álbum favorito é Sgt. Pepper's, mas que ele só começou a gostar depois de velho. Aquele que conhece Wallflowers, porque a gente falou sobre isso em uma dessas caminhadas sem destino pela cidade. Ou será que foi naquela vez que fomos tomar uma cerveja? Aah, já sei! Foi naquele dia que fomos no pub modinha do centro. Falando nisso, foi bem engraçado, tava rolando a maior DR na mesa do lado.

Entende?

Ele me atrai. E não me atrai por saber se ele estará aqui amanhã ou não. Se ficamos uma noite ou se ficaremos uma vida inteira. Me atrai saber que enquanto esteve aqui, estava comigo não pelo fato de eu ser mulher, mas pelo fato de eu ser eu. Lidia. 25 anos. Nascida e crescida em Santo André. Cor favorita: roxo. Gosta de cozinhar. Adora animais, mas tem nojo de pombos. Fala palavrão pra caralho. Se deu muito mal quando tentou andar de patins e bicicleta ao mesmo tempo. Adora luzes de Natal. Gosta do céu. Queria ser pilota de Fórmula 1, mas desistiu porque não tinha dinheiro. Descobriu depois de velha que o anarriê da festa junina era uma palavra em francês. Odeia conversas de elevador e fazer média com as pessoas. Pediu demissão do chefe. Trabalha 24h por dia se deixar. Que, não parece, mas além de demissexual é tímida. E que, mesmo te achando bonito e gente boa, não vai ficar com você por ficar. Que pode demorar um mês pra criar um laço contigo, ou apenas algumas horas.

É difícil ser assim?

É sim. Ainda mais nessa sociedade moderna que parece que disputa quem se interessa menos. Ainda mais quando você se interessa por pessoas extremamente alossexuais. Você não pode chegar falando: "oi, sou demi, não encosta muito em mim não, tudo bem?". Você gostaria de corresponder, mas simplesmente não consegue porque não faz sentido pra você. Então elas pensam que você não está a fim e tchau oportunidade de conhecer alguém legal.

Eu sempre ficava com uma sensação meio bosta de "olha eu estragando tudo de novo". Mas com o tempo você se aceita. Isso é o que você é, se o outro não entende talvez ele não queira entender. Talvez ele estivesse ali pela mulher e não pela Lidia (acontece muito, quase sempre... acho que sempre).

E também porque a gente SEMPRE quebra a cara. Demis precisam do "apego" pra se envolver, então não importa a intensidade da ligação, pra se quebrar a cara basta que ela exista e, pra nós, ela sempre existe.

Então, sabe, a gente já é obrigado a lidar com tantas coisas. Tantos sentimentos e pensamentos conflituosos. Poupe-nos de seus "mas...". Entenda que neste mundo existem pessoas diferentes de você, pessoas que acham o colega do escritório mais atraente do que o Stephen Amell e isso não faz delas melhores ou piores que ninguém, tá?

Um beijo pra vocês.

*Lidia Amendola é designer-publicitária paulista. Mestranda em mídias digitais na França.

|| Via Huffpost Brasil
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Sagrada maconha

quarta-feira, 16 de novembro de 2016


“Quando falamos em maconha,
estamos falando de uma erva
que nos foi dada pelo Criador.
Não para negar ela
nem tampouco consumir
em função do mero divertimento,
e sim para se aproximar dela
com respeito e sem abuso”.


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A canção do desapego

quarta-feira, 9 de novembro de 2016


*Por Abílio Neto

Domingo passado, assisti comovido ao velório e sepultamento da mãe de um grande amigo. Naqueles momentos eu vi tantas lágrimas derramadas e tanto sentimento brotando à flor da pele que, por dentro, eu também senti. Chora-se pela perda quando se deveria chorar pela saudade, mas humanamente se torna impossível fazermos a demarcação de quando termina uma e começa outra. Choramos quando sentimos que perdemos, esta é a verdade!

Pensando bem, acho que chorar por uma pessoa cuja vida foi uma eterna alegria, fica meio contraditório. A palavra eterna foi usada no mesmo sentido que o poeta Vinícius de Moraes a empregou: eterna enquanto durou. Vejo também a questão do esforço que deve ser feito, sobretudo por parentes, visando não derramar tantas lágrimas, a fim de que a pessoa que desencarnou não fique presa a laços terrenos e siga livre a sua caminhada em direção de outra casa do Pai. Eu não sou favorável ao choro, mas acho-o inevitável. Por mais que nos preparemos espiritualmente para o desenlace, este nos surpreende e supera naquilo que ainda temos de pontos fracos.

Antônio Candeia Filho, mais conhecido simplesmente como Candeia, o grande sambista da Portela que faleceu em 1978, aos 43 anos, era um compositor genial. Por volta do final do ano de 1975, o jornalista e escritor Juarez Barroso, andava meio perdido na vida, chegou perto dele (que já vivia paralítico e usando cadeira de rodas) e lhe disse que tinha um tema para ele compor um samba: “preciso me encontrar”. A inspiração do Criador para esta canção foi uma coisa tão sublime que, ouvindo-se sua letra, você tem a impressão de que ela foi feita muito mais para compreender a vida pós-morte do que para atender alguém que quer encontrar seu rumo e seu prumo neste vasto mundo. A música se tornou um presente de Candeia para que Cartola a incluísse no seu segundo LP, gravado em 1976, quando o compositor da Mangueira tinha 68 anos.

Em 1977, quando ouvi este samba pela primeira vez, fiquei completamente pasmo com tanta sabedoria dentro de uma música popular, feita por um homem simples, do povo, chamado Candeia, que até hoje admiro. Pus até um apelido nela, de uns anos para cá, canção do desapego, uma vez que serve de autoajuda para entendermos melhor o significado da morte, do devir da vida.

Ninguém previa que esta música realmente se tornasse emblemática nessa questão da passagem de uma vida para outra: o jornalista, escritor e excelente crítico musical do Jornal do Brasil Juarez Barroso, que fez o pedido do samba a Candeia, foi o produtor do segundo disco de Cartola, mas não teve tempo de curtir seu grande trabalho porque faleceu em 18/08/1976, aos 41 anos, em decorrência de um aneurisma na aorta, um mês e poucos dias antes do lançamento da joia que produziu. Assim, a canção de 1976 se transformou num enigma espiritual. Teria tido ele alguma premonição? Além disso, o autor da música também se foi dois anos depois. Ela embalou a despedida dos dois.

Uma original interpretação de Preciso me encontrar você pode assistir e ouvir no vídeo embaixo. Com nuances de tango argentino, a música que emana do bandolim de 10 cordas de Hamilton de Holanda e do violão de 7 cordas de Yamandú Costa e as vozes combinadas do singular Zeca Pagodinho e de Marisa Monte, fazem do samba de Candeia um verdadeiro hino ao desapego, um tributo à vida em sua essência de fluir permanente e transformador. Não perca, aperte o play.



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Feminicídio gourmet

quarta-feira, 26 de outubro de 2016


"O ciúme quando é furioso produz mais crimes 
do que o interesse e a ambição."
-Voltaire- 
*Por Alú Rochya

O sentimento dele poderia ser chamado de amor a primeira vista. Uma paixão cega havia arrasado sua imutável paz oriental o dia em que ela chegou até sua poltrona abrindo aquele sorriso simples e amável, e no entanto sedutor, lhe oferecendo uma taça de champanha. A pouco mais de 8 mil pés de altura, a metade de caminho entre Tóquio e Paris, o avião da Air France parecia detido no céu. Aproveitando essa calmaria, as comissárias de bordo brindavam com um serviço de coquetel aos passageiros de primeira classe.

Tal vez por esse ar de velado desdém próprio de certas mulheres francesas ou quiçá pelo seu zelo profissional, naquela hora ela não reparou no olhar sugestivo dele e o tratou como um viajeiro mais. Se para todo o mundo japonês é tudo igual, não era assim com ela, familiarizada com rostos, costumes e língua orientais depois de vários anos de voar à terra do sol nascente e ficar na ilha grande inúmeras vezes. Foi por isso que, já na saída do aeroporto, ela reconheceu logo o homem tão gentil que estava convidando-a com uma carona até o centro de Paris como um dos passageiros do seu recente voo.


Aeromoças disparam fantasias nos homens e são sempre cortejadas, quando não assediadas. Estava costumada a esses lances e a recusar, delicadamente, esse tipo de convites. Porém, nesse instante ela não soube dizer não. E essa viagem juntos, até a cidade que ele ia visitar pela primeira vez, foi o começo de um namoro avassalador.


Ele tinha esposa e dois filhos no Japão. E era um executivo bem-sucedido de uma corporação japonesa com planos para abrir uma filial na França. O projeto ia fazer com que ele viajasse a Paris a cada 15 dias, devendo ficar por lá uma semana cada vez. Nada melhor para curtir esse inesperado namoro com a bela francesinha que arrebatou seu coração. Ela estava fazendo 28 anos, morava sozinha, era uma mulher liberal, de boa renda, quase sempre com amantes mas sem homem fixo. Porém, esse quarentão japonês de traços finos e olhar inquietante tinha conseguido prender ela a um namoro estável.




Oficialmente, ele se hospedava num hotel. No entanto, separando com rigor oriental o trabalho do prazer, ele alugou um luxuoso apartamento num bairro nobre da cidade, para fazer dele o ninho de amor onde os dois eram verdadeiramente felizes, passando ali suas melhores horas de deleite e encanto. Ela adorava compartir os pratos exóticos que ele preparava na hora do jantar com mestria de grande cozinheiro e ele gozava fazendo as delícias dela. Tudo começava à noite, na mesa e se estendia até o amanhecer, na cama.


O apaixonado romance foi um fogo que se manteve vivo e inalterável durante quase seis meses. Mas quando a canção se fez mais clara e mais sentida, quando a poesia fazia folia em suas vidas, ela chegou uma tarde e disse que tudo tinha acabado.

Ele ficou estremecido. Não havia sequer um indício para imaginar-se que algum dia aquilo poderia ter um fim. Nesse tempo de namoro jamais houve uma zanga sequer. Perguntou se havia outro homem. Ela respondeu que não. E não o havia. Ele ainda quis saber qual era, então, o problema. Ela disse que não havia problema. Que simplesmente achava que a experiência estava esgotada. Que era só isso. Falou também que era uma mulher livre, que não gostava ficar muito tempo amarrada a ninguém. Lhe pediu compreensão, deu um abraço carinhoso e um último beijo nele e foi embora.

Duas semanas depois os pais da menina se apresentaram à polícia para denunciar seu desaparecimento. Nesse tempo ela não se apresentou ao trabalho nem deu sinais de vida. Com a colaboração dos pais, a polícia conseguiu entrar no seu apartamento de solteira mas não achou qualquer vestígio para orientar a busca. Enquanto os dias se passavam o mistério crescia. Ninguém aportava um sinal o um rastro significativo. A discrição era uma marca dela e isso fazia que pouco e nada se conhecesse de sua vida privada, o que dificultava a pesquisa.



Entre tanto, naquele outro apartamento, ainda impregnado dos cheiros dela, ainda com os ecos de suas limpas risadas e seus gozosos gemidos, ele amargurava, sozinho, o imprevisto desfecho. Que acreditava ter sido por causa de um outro homem. E continha a raiva profunda que lhe produzia o fato incompreensível de ter sido abandonado desse jeito, da noite pro dia, de modo inapelável.


A cada hora a ferida se fazia mais lacerante, a ausência feroz dela mais insuportável, o desespero mais incontrolável. Aquela manhã sentiu que tinha chegado ao seu limite. Que não conseguiria segurar mais o hediondo segredo. E não conseguiu. Pela tarde se apresentou à polícia e, arrebentando em prantos, contou tudo.

Ele mesmo tinha matado a menina. Depois atassalhou o corpo dela e colocou os pedaços no freezer. Explicitou que cada noite, tomava uma dessas porções e preparava um prato diferente, como aqueles que ela tanto apreciava. E que, sentado à mesa, na hora do jantar, banhado em lágrimas, noite a noite comia uma parte dela. Disse que sentia que assim a levaria sempre com ele e ela não poderia ser de mais ninguém. Com o olhar perdido no chão, procurando num canto de sua própria alma um álibi moral para tamanha atrocidade, respondeu uma pergunta que ninguém lhe tinha feito: a matei porque era minha
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* Texto baseado numa história real acontecida em Paris, França, nos finais da década de 1990.  
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